Faço pé e mão

09 de Agosto – 22 de Setembro de 2018

A colaboração entre a artista carioca Ana Matheus Abbade e Ilê Sartuzi cria uma vitrine que, embora retire elementos dos mostruários tradicionais de manicures e salões de beleza, resulta numa esquisita composição de um conjunto de pedaços de corpos – pés, braços e mãos, cabeça e dedos avulsos – com unhas postiças, alongadas e pontiagudas, que atravessam o espaço.

Dentro da produção de ambos os artistas, a reflexão sobre a não-normalidade em relação à exploração do corpo sempre foi uma questão central. A partir disso, a ideia de estabelecer uma vitrine que se assemelha ao que se veria de um estabelecimento comercial, contudo absurda, é o ponto de partida para a segunda intervenção no arte_passagem. Deve ser apontado, que o ambiente onde a intervenção acontece, o centro da cidade de São Paulo, é um espaço onde esse tipo de visualidade é recorrente, além de ser ponto comum para corpos que embaralham a normatividade.

“Faço Pé e Mão” anuncia o serviço ofertado pela artista, manicure e pedicure Ana Matheus durante o período da exibição; no interior da vitrine e em ruas do entorno, anúncios informam ao público o contato para o agendamento. O título refere-se, no entanto, tanto ao exercício de uma prática quanto à produção material desses dois pedaços de corpos. A vitrine assume, portanto, um caráter comercial, complexificando as funções desse espaço, ao mesmo tempo em que pode ser tomada enquanto a constituição de um corpo – estranho – formado por fragmentos. Esse corpo reside num lugar entre a imagem, própria de sua posição de manequim, e uma materialidade quase abjeta, que é intensificada pela presença das unhas alongadas e curvas que ocupam um espaço entre o produto e o interesse curioso que provoca um freak show.

co-criador do arte_passagem e organizador do DESFILÃO, Ilê Sartuzi apresentou três conjuntos de peças em látex. No conjunto de pele do corpo inteiro, uma cabeça com a impressão das feições de Kim Kardashian era carregada e também esteve na vitrine.

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fotografias de arte_passagem, Daniel Albuquerque, Eduardo Viveiros, Julia Coelho e Lucia Koch. 

Participaram desta edição do DESFILÃO:

Aleta Valente a.k.a ex_miss_febem2
André Barion + Mariano Barone
AVAF (assume vivid astro focus)
CHRUA
Cléo Döbberthin + Gokula Stoffel + Janina McQuoid + Santarosa Barrero + Yuli Yamagata
Daniel Albuquerque
Dudux
Henrique Cutait
Igor Vice
Ilê Sartuzi
Janina McQuoid
Maria Palmeiro
Marina Avello
Pedro França
Pepi Lemes
Roberta Uiop

pé, 2018
resina de poliuretano, pelos e unhas postiças
32 x 10 x 10 cm 

colaboração com Ana Matheus Abbade

montagem na exposição faço pé e mão no arte_passagem

sem título (videogame_gltiches), 2018-2019
video HD, cor e som 
05’46’’

Vista da instalação na exposição ArteLondrina 7 com curadoria de Danillo Villa e Clarissa Diniz na DaP – Divisão de Artes Plásticas.

O video investiga as falhas (glitches) de jogos de videogame a partir de imagens apropriadas da internet. Dividido em duas partes, a primeira delas investiga falhas referentes à estruturação dos corpos dentro do sistema do mundo virtual. Esses glitches alteram a ordem estabelecida e o funcionamento normal das coisas, transformando, em alguns casos, a tridimensionalidade aparente que estrutura esse mundo, revelando a bi-dimensionalidade chapada da imagem. Nesse sentido, a pesquisa sobre a imagem dos corpos continua a se aprofundar em outro campo representativo. As investigações que transitavam entre o corpo escultórico e a imagem pintada adentram a virtualidade como maneira de deslindar a construção – e aqui o aspecto construtivo deve ser levado em conta – de corpos fragmentados e por vezes monstruosos.

Na segunda parte do vídeo são exploradas as possibilidades de um jogador usar um glitch em sua vantagem de uma maneira não pretendida pelos designers do sistema, isso é caracterizado nos videogames, como um exploit. Amplia-se, portanto, a compreensão de atuar pelas brechas (ideia tão cara à alguns filósofos contemporâneos como Alain Badiou). Entendendo os mecanismos do sistema e suas falhas, o sujeito pode intervir de maneira mais potente em estruturas complexas atravês dessas aberturas.

sete exercícios para olho e língua, 2019
vídeo em TV de tubo
8’ 22’’ | dimensões variáveis

O vídeo sete exercícios para olho e língua acompanha o observador através de uma sequência de movimentos que tem como fim o relaxamento do foco de atenção excessivo e o desenvolvimento dos músculos oculares. Em contraposição aos comandos certeiros, o manejo do olho através da língua se mostra difícil e escorregadio. A aproximação pouco usual entre os dois órgãos gera uma relação táctil entre a materialidade das duas coisas, além da plasticidade dos lábios que são manipulados. Nesse caso, a distancia entre a proposição de um exercício e a capacidade de realiza-lo com sucesso são marcadas pela tentativa e erro da pessoa que performa a atividade em frente a câmera.  

“Talvez pela trilha etérea, ou talvez pelo esforço claro da boca que trêmula e muitas vezes falha na execução daquilo que seu próprio enunciado demanda, a relação da torção e movimentação entre estes dois elementos – a constância do olho e a inconstância do músculo língua, nos joga para um espaço onde a ficção se adere a realidade perante algo que soa como uma smart fit para ciclopes.” TEIXEIRA, Guilherme. Exercícios para cíclope. 2019

palestra-palestra: FODA (frankenstein), 2018

palestra-performance, pele de látex e vídeo
20’00’’

A palestra-performance Frankenstein toma a ideia da construção do corpo a partir de fragmentos para elaborar reflexões sobre as condições ideais de beleza e o desenho de si (self-design), tal como proposto por Boris Groys. A fala é formada por fragmentos de textos apropriados, que variam de um dialogo de Sócrates no século IV a.C. até textos de Paul B. Preciado e Donna Haraway, passando por trechos jornalísticos e o romance gótico de Mary Shelley. Dessa maneira, os estilos de discurso se alteram com frequência, ora assumem um tom académico ora a firmeza de um manifesto contemporâneo. A aproximação ruidosa desses textos é confrontada ainda com um vídeo que não corresponde diretamente com os momentos da fala, mas cria um arcabouço de imagens a cerca dessas construções dos corpos. O vídeo tem como pano de fundo as narrativas dos filmes de Frankenstein, principalmente o filme de Paul Morissey, Flesh for Frankenstein, mas somam-se à essas imagens um concurso da Barbie brasileira, apresentações de Arnold Schwarzenegger e o Robocop, por exemplo. 

Essa performance fez parte de um conjunto de palestras que o grupo Depois do Fim da Arte apresentou na VERBO (2018). As apresentações tinham como ponto de partida comum a temática da sexualidade, foram divididas em quatro, a saber, corpotrabalhoarquitetura e coisa.

Fotografias: Eduardo Fraipoint

menino-mosca, 2018
látex, tinta óleo e nylon
60 x 53 cm

pele (corpo I), 2018
látex e nylon
180 x 60 x 40 cm

pele (pernas), 2018
látex e nylon
110 x 60 x 40 cm

pele (braço_tripé), 2018
látex e nylon
82 x 60 x 60 cm